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terça-feira, 19 de outubro de 2010

Cultura: O fim dos marcianos

Por Frederic Burnand, swissinfo.ch

"Em 2000, visitando os habitantes de Marte." Postal publicitário Campari, 1906.

Lançado na Maison d'Ailleurs, em Yverdon, o "Dicionário Visual dos Mundos Extraterrestres" oferece uma viagem espaço-temporal no imaginário científico.

Um inventário de sonhos e pesadelos do mundo ocidental. Encontro com Yves Bosson, um dos autores do livro.

Foi no coração do bairro do Plateau, em Marselha, que Yves Bosson concebeu, escreveu e realizou, junto com Farid Abdelouahab, o Dictionnaire visuel des mondes extraterrestres (Dicionário Visual dos Mundos Extraterrestres). Um inventário que propõe 170 verbetes e 304 ilustrações referentes a 25 séculos de história dos mundos extraterrestres.

Oriundo do cantão de Neuchâtel, Yves Bosson vive há 20 anos no antigo porto mediterrâneo onde ele fundou a "Agence martienne" (Agência de Marte), uma rica e inacreditável fototeca com mais de 50.000 documentos, resultado de suas duas paixões: a fotografia e o imaginário científico.



swissinfo.ch: Desde quando se fala em extraterrestres?

Yves Bosson: A idéia da pluralidade de mundos habitados data do século V antes de Cristo, com os filósofos atomistas da Grécia antiga, uma escola do pensamento que concebia um mundo feito do vazio e de átomos em interação, criando a matéria e a vida. Como as mesmas causas deveriam produzir em outras partes do universo os mesmos efeitos que aqueles encontrados na Terra, outros mundos seriam então possíveis - incluindo até mesmo as "raças de homens e animais diferentes" - de acordo com estes precursores do pensamento científico.

Depois, com Aristóteles e seus discípulos, e retomada mais tarde pela Igreja, foi imposta durante 1500 anos, a concepção da Terra como centro de um universo único e fechado que excluía de fato a possibilidade de existência de outros mundos.

Um conceito que começou a se desintegrar a partir do século XIII com a escolástica medieval e depois com o Renascimento. Ao colocar o Sol no centro do mundo e rebaixar a Terra à categoria de planeta, Nicolau Copérnico causou um big bang no imaginário da época que vai se desenvolver até hoje unindo os limites da história da ciência e das ideias. Rapidamente, os outros planetas vão se tornar, para muitos autores, mundos onde seria possível de se viver. Isso abre o caminho para a invenção, e mais tarde, para o conceito de extraterrestres.

swissinfo.ch: Como nasceu, exatamente, a representação de extraterrestres como personagens

YB: A meu conhecimento, a primeira representação de um extraterrestre foi em 1835-1836. Eram homens morcego que moravam na lua, observados por um suposto super-telescópio. Selenitas criados para ridicularizar alguns supostos estudiosos da época que teriam visto construções artificiais na lua.

Esta história inspirou uma série de gravuras e foi interpretada no começo como uma história sobre os habitantes da lua, antes de ser chamada de fraude - "Moon hoax" (Farsa da Lua) - enquanto que o seu autor, Richard Adams Locke, queria mesmo era produzir um texto satírico.

Foi um pouco o mesmo destino que experimentou Orson Welles, em 1938, na sua célebre adaptação para o rádio da famosa Guerra dos Mundos de HG Wells, que foi anunciada como tal, como um verdadeiro relato sobre a chegada de marcianos em Nova Jersey, com flashes de informações hiper-realistas que fizeram até alguns ouvintes acharem que as informações eram para valer. Em seguida, consideraram tudo como um embuste ao invés de ficção.

swissinfo: Qual é o fio vermelho do seu dicionário?

YB: Nosso livro tem como parte central o imaginário científico característico da ficção científica ou as anomalias paracientíficas, como os OVNIs. Com uma dupla dinâmica: no caso da ficção científica, ela se alimenta das descobertas científicas, alimentando a inspiração dos pesquisadores.

Até recentemente, um programa lançado pela Agência Espacial Europeia visa justamente encontrar na ficção científica novas idéias que possam contribuir na pesquisa espacial.

Mesmo assim, esse imaginário precisa é do borbulhar das idéias e não da sua aplicação. A descoberta dos exoplanetas e a aceitação cada vez mais ampla da possibilidade de formas de vida alienígena, constitui, portanto, um ponto de viragem. Finalmente habilitados pelas principais descobertas astronômicas (exoplanetas telúricos na distância certa de sua estrela), os extraterrestres parecem estar saindo das representações imaginárias.

Nisto, os extraterrestres são um reflexo de sua época. Assim, em 1840, o naturalista Pierre Boitard publica uma série de artigos sobre os habitantes de cada planeta do sistema solar, imbuído pela teoria evolutiva e o ambiente colonialista da época. Os habitantes desses planetas são também uma oportunidade para Boitard de se endereçar aos seus contemporâneos, com a descrição de uma utopia social em vigor em outros mundos.

Os extraterrestres também são representações de nós mesmos no futuro, a fase final da nossa evolução biológica. Assim, os marcianos macrocefálicos de H. G. Wells (1897) não passam de grandes cérebros com oito pares de tentáculos e nada mais. Incapazes de se mover por si mesmos, eles agem através das máquinas, assim como nós hoje, com nossas múltiplas próteses e aparelhos de toda espécie.

Frederic Burnand, swissinfo.ch
(Adaptação: Fernando Hirschy)


ABAIXO ALGUMAS IMAGENS

Pastor marciano, segundo a médium suíça Hélène Smith (1896)

Disco-voador interestrelar do povo ummita, cuja primeira aparição data de 1950, em Montreux. Os céticos vêem apenas uma maquete suspensa por um fio.

Sabão em pó do planeta Xélène (1968). Não é só a Suíça que lava mais branco...

Palácio marciano na visão da médium genebrina Hélène Smith (1896)
O alfabeto marciano, segundo a médium Hélène Smith

Extraterrestre surpreendido na fronteira franco-suíça por um fotógrafo a procura de reconhecimento (1952)

Representação de um prodígio celeste observado pelo cônego de Zürich Johann Jakob Wick (1522-1588)

Representação artística de um exoplaneta. O primeiro foi descoberto em 1995 pelo astrônomo Michel Mayor, do Observatório de Genebra

Poster do antigo jornal de Genebra "La Suisse", no começo dos anos 70

O francês Pierre Versins funda em 1976 a "Maison d'Ailleurs", em Yverdon, o único museu público do mundo de ficção científica

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