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terça-feira, 9 de junho de 2009

O cão que me seguiu

Li, achei interessante e compartilho neste blog.
Vale como reflexão.

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O cão que me seguiu

Quando eu era pequeno, o pai dizia que um anjo passava às dez horas da noite para ver se as crianças estavam dormindo.

Há alguns anos, já bem maior, eu estava voltando para casa, tarde da noite, e um cachorro de rua começou a me seguir. Lembro-me como se fosse hoje dos olhos tristes do animal, da expressão de súplica. É claro que ele estava com fome e sede. Mas eu não fui humano o suficiente para lhe dar um pedaço de pão e um pouco de água. Depois de uma noite de farra, eu pensava apenas em cair na cama, em sono profundo.

O cão seguiu-me por mais de dez quarteirões. De vez em quando eu me virava, na esperança de que ele já tivesse desistido. Mas o cão era persistente; ainda estava lá. Na mente do cachorro, um notívago só poderia existir por uma razão: eu estava ali para ser seguido.

Fico imaginando se, por algum motivo inexplicável, eu decidisse acolher aquele cachorro em minha casa. Depois de lhe oferecer um pote de água da torneira, dividiria com ele o macarrão Miojo (base de minha alimentação por muitos anos). Arranjaria alguns cobertores para que ele pudesse dormir. Seria um cão sem nome e sem dono, mas com um amigo.

Na manhã seguinte eu acordaria de ressaca, embora contente por ter nascido um dia tão bonito. Daria um banho no cachorro, depois do qual ele se chacoalharia daquele jeito que só os cachorros sabem fazer. E eu me recordaria de alguns famosos cães da literatura: Argos, Baleia, Quincas Borba. E aquele outro de Jack London.

A partir daquele momento todos notariam alguma diferença em mim. Eu passaria a ser mais compreensivo, nunca impaciente, sempre amoroso. O ódio e o sarcasmo deixariam de fazer parte da minha personalidade. E no quintal da minha casa lentamente cresceriam dois ipês amarelos, em meio aos ossos que o cão enterraria por motivos ancestrais.

A vida seria algo diferente se eu tivesse acolhido o cachorro naquela noite. É bastante provável que eu me tornasse outra pessoa: teólogo, marceneiro, pintor de paredes, mendigo ou auxiliar de serviços gerais. A tristeza e a dor continuariam a existir, acompanhadas de uma inexplicável saudade das coisas desconhecidas, mas haveria também uma enigmática alegria essencial, como se tudo estivesse contido em tudo.

Na verdade, o cachorro me segue até hoje. Às vezes estou andando na rua e olho para trás; não consigo vê-lo, mais sei que ele está lá. Os anos passaram e o cão foi ficando mais discreto. Quando eu era pequeno, na hora de dormir, ele era o anjo das dez. Com o tempo, virou meu amigo silencioso de todas as horas.


Paulo Briguet


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