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sexta-feira, 8 de maio de 2009

A São Paulo de Antanho



A SÃO PAULO DE ANTANHO....


Rafael Telles,
Gostaria de tentar descrever, embora seja sumamente difícil, o que era a sua cidade de São Paulo quando eu a conheci e vivi nos anos 50, ou mesmo 60...

Era um outro planeta, pode crer!

Bem, vamos do início: O que me levava constantemente lá era o fato de viajar nos trens DP, de aço inoxidável, da falecida e saudosa Estrada de Ferro Central do Brasil. Ali residia o verdadeiro motivo. Fazia tais viagens, geralmente, nas férias escolares do início do ano e em julho, pra pegar também algo que não existe mais em Sampa: a garoa!!!!!

A viagem durava em torno de 9 horas e a estação final era em Roosevelt, ali no Brás.
Para economizar o dinheiro de meu pai, enquanto ainda estudante, ficava nos simples, mas bons hotéis do Brás, que era um bairro civilizado naquele tempo.. Um hotel que gostava era o Sul America, bem defronte a estação. Pouco tempo depois foi inaugurado o Andes Hotel, bem mais moderno e gostoso. Era só sair de Roosevelt dobrar a esquerda, atravessar a cancela da EFSJ, dobrar uma ruela a direita, e, numa paralela a Rangel Pestana, ficava o hotel. Tinha talvez uns 10 andares, algo imponente para a época, e o melhor de tudo é que seu restaurante ficava no último andar, com amplas janelas dando para o Pari.
O café da manhã ali me fazia imaginar uma cidade como seria Manchester, na Inglaterra. Pela manhã, a garoa e a névoa eram fortes, um pouco distante, no Pari, os trens da EFSJ em suas manobras matinais, tudo com locomotivas a vapor. A todo momento passava um subúrbio que chegava ou saia do Brás com sua vaporosa apitando freneticamente, até a chegada da hora que eu esperava com impaciência que era o “Cometa” verdão, vindo da Luz e a caminho de Santos.
Tudo isso era lindo demais, mas ainda conservo em minha mente. Os parcos neurônios ainda guardam aquelas cenas inesquecíveis..
Já que falamos do break-fast do hotel, podemos detalhá-lo: O café, não sei explicar, tinha um sabor, como em todos os lugares de São Paulo, que jamais encontrei em outro local Desapareceu! Acabou! Era algo mais torrado, não sei explicar. Enquanto o mamão lá do Rio, onde morava, era cor de abóbora, o de lá parecia uma melancia de tão vermelho que era, e de uma doçura inimaginável, o pão fresquinho e crocante. Nada tão variado como no demais hotéis nos dias de hoje, mas super gostoso.
Era um custo pra eu deixar o restaurante, pois não queria perder o que eu via lá de cima, aquela vista britânica maravilhosa.
Com o tempo, e pra variar um pouco, comecei a me hospedar na região em volta da Luz, onde encontrei muito bons hotéis, antigos, mas confortáveis e gostosos.
Já nos anos 60, trabalhando na RFFSA, fui para uma zona mais nobre (naquele tempo...) Ipiranga com São João, conforme nos canta Caetano. Ali, uma ruazinha tranqüila, saindo da São João, havia o Inca Hotel, e pouco tempo depois foi construído o moderno Hotel Apolo. Tínhamos o Normandie na Ipiranga. E outros mais apareceram, e São Paulo também já ia mudando, pra mim, pra pior...
Embora como está escrito acima, cabe-me explicar que sempre preferi Sampa ao Rio de Janeiro onde morava. Sampa para mim era um outro planeta! Passeava por aquelas vias como um caipira embevecido com tudo que via. Andar na Ipiranga, São João, Praça da República, na Sé, na Estação da Luz, onde passava a manhã inteira debruçado naquele balcão vendo os trens da Paulista lá em baixo, não tem preço. Voltava lá a noite para ver as partidas dos noturnos de Barretos, Panorama e Araraquara, pode parecer algo meio doido, mas tenho saudades até hoje.

Em Roma faça como os romanos, então lógico que tinha que fazer que nem os paulistanos. A tardinha, pegava um bonde (ou ônibus???) ali no Anhangabaú para Congonhas e lá ia eu ver aviões da VASP decolar e aterrissar. Programa de índio civilizado... Recordo-me que esta condução para lá passava pela Avenida Paulista, não essa de hoje, com seus imponentes arranha-céus, mas a bela Paulista arborizada, com canteiro central e suas magníficas mansões. Ficava extasiado com tanta beleza! No aeroporto tinha e me lembro bem, um café super especial de gostoso. Não o perdia...
De tanto ir ao aeroporto, acabei, isso nos anos 60, fazendo ali minha primeira viagem aérea, meu batismo de vôo.

Trabalhava já na RFFSA e tinha de ir urgente a Belo Horizonte, então, criei coragem e comprei passagem num Convair da Real-Aerovias. Consegui uma poltrona lá trás, onde as asas não atrapalhavam minha visão e lá fomos nós para as Alterosas.
Foi servido um lanche, lógico que não no padrão VARIG, que vim a conhecer depois, mas razoável, melhor que os KLM de hoje...
Meu único susto a bordo e que depois do dito lanhe, comecei a escutar uns ruídos metálicos bem estranhos, de meter medo. Olhei o motor do meu lado, e parecia funcionar bem. Me espichei todo para ver o motor do outro lado, mas não havia vestígio de fumaça. Conclusão, após novas investidas procurando o que ia nos derrubar, descobri que eram simplesmente as aeromoças jogando os talheres, de prata, no recipiente adequado.
Cheguei em BH após uma hora de viagem, bem mais rápido que as 16 a que estava acostumado quando ia do Rio para lá no trem da Central...

Quarto Centenário de São Paulo, foi uma festa do arromba!!! Como sabia que seria difícil conseguir hotel, fiquei hospedado em casa de parentes da mulher de meu primo, não sei mais em que bairro.
Foram inúmeras as festividades. Paradas; grupo folclóricos, Expo do Ibirapuera, que pra mim foi algo fantástico de ver, tudo aquilo novinho em folha. Passei quase que uma semana por lá e sem chuva...

Em 1955 fui para Sampa por uma rota diferente. Embarquei no Rio num navio da Costeira, o “ARATIMBO”, fui pra Santos e de imediato, peguei o “Cometa” da Santos a Jundiaí para a Luz. Foi meu batismo marítimo. Excelente viagem também de saudosa memória.

Nos anos 60, num cruzeiro marítimo até Manaus, conheci um casal, que viajava com sua filha, e a família era super agradável. Ele era um dos diretores da AGFA-Material Fotográfico, e fui convidado por eles para um fim de semana em sua residência lá para os lados da Água Branca, depois do Parque.
Fui, assim que possível, para mais um brilhante fim de semana numa bela mansão paulistana.
Muito embora a motivação principal tenha sido mais porque estava super interessado em sua bela filha, e que, como sempre, não deu em nada, e voltei lambendo os dedos, embora, tenha tido uma estadia bem agradável na residência deles.

Dos restaurante de São Paulo tenho excelentes recordações, só me esqueci seus nomes e onde ficavam. Lembro-me, por exemplo, do “Baby Beef”, com uma carne vinda não sei de onde, parece-me que Santa Gertrudes. Havia, não sei onde, um outro cuja especialidade eram massas, ou seja, massas paulistanas que havia de melhor no planeta. Me esqueci seu nome e localização. Nunca comi um verdadeiro Bauru, por incrível que pareça!
Nos anos 60, fui com um colega da RFFSA, de refinado gosto e descendência italiana, ao restaurante Itália, no edifício de mesmo nome ali junto a Praça da República, no seu ponto mais alto. Vista fenomenal.
A comida era divina, o ambiente mais do que tradicional, com famílias paulistanas ali reunidas e não executivos de colarinho branco. Ali me fazia sentir em Manhattan, no Worldolf Astoria.

Outro passeio que virou hábito era pegar um ônibus no Anhangabaú até o Rio Pinheiros e lá um outro para o Butantã. Lá is eu ver cobras, lagartos e escorpiões. Embora as cobras nunca me fossem simpáticas, era um passeio divertido e fora do comum.

Não gostava muito, não sei porque nunca me foi simpático, o Museu do Ipiranga. Havia algo ali dentro que não batia comigo... Já o bairro passou a ser melhor encarado por mim, pois tinha um amigo do Rio que foi morar lá, e quando ia visitá-lo, ia de trem de subúrbio da SJ, e desembarcava numa estação ultra moderna para a época, toda restaurada em pastilhas de louça de cor azul, isto na gestão do Dr. Renato Feio, que veio a ser posteriormente Presidente da RFFSA. Quanto ao bairro, não tinha nada contra.

Bem, essa foi a São Paulo que conheci, que gostava, que era diferente de tudo que conhecia, principalmente quando a comparava com o Rio onde eu morava e não gostava, e apesar de tudo, gostava muito para visitá-la, mas não sei se agüentaria morar lá, como não agüentei no Rio de Janeiro.

Leonardo Hanriot Bloomfield

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